Se a linguagem não fala sem um escritor, um coração bate por si só... Egoísta ao extremo. É bem sabido que todo extremo é prejudicial, é mal sabido que o amor é o maior mal...
Como pedir para sofrer, pedir para sentir saudade, se esta não é a negação da existência, em sua condição mais própria e intrínseca?
Estar vazio... Qualquer coisa é melhor do que ficar vazio. Ledo engano. Quer se encher de mágoas? Não perceberá até chegar até a borda, e quando vires a gota d'água na iminência de lhe tocar, aí sim amaldiçoará todos os deuses pelo amor.
Um perfume te lembrará da entrega a que seu corpo foi submetido. Na maior passividade possível. Fremente você esteve.
Um desprezo lhe fará voltar à floresta. Um sorriso lhe fará correr pela floresta. Um beijo lhe fará deitar na floresta. A saudade lhe fará perceber que nunca houve floresta...
Confesso - desmoralizado - que a linguagem culta de artigo não me ajuda em nada... Dizem que o coração pulsa em versos. Se assim me for permitido, a eles recorrerei:
Como pode a flor não amar o jardineiro?
Como pode este não cuidar do seu canteiro?
Como pude eu viver o ano inteiro?
Como seu sorriso me lembra de fevereiro?
Lembra que sou apenas um carteiro:
Tenho que lhe levar no peito, sem algum dinheiro:
Por você cantarei o mundo inteiro.
Temo por lembrar que ainda falta para janeiro,
E imagine fevereiro...
Mas prefiro assim:
Paciência do rubim,
Canto do serafim,
Presença do querubim,
Entrega da jasmim,
Seus sorrisos:
Finjo que é por mim.
Assim chego ao conciso
Conceito para o amor:
Nem riso, nem esplendor.
Se não cabe no peito
Não caberá em nenhum conceito:
Assim prometo e aceito.
Não há conceito, não há direção.
Há o sol, a lua, a ave, o telhado e a chuva.
Talvez o coração não goste de conceitos, não há tempo para isso.
Com certeza, ele existe. Talvez, ela resiste...
Talvez, outubro e novembro foram pouco tempo. Talvez se...
Começou a chover, onde ela está?
Ex aspectu nascitur amor




